Nasci ouvindo falar em automóveis. Na década de 1950 meu pai era importador de peças para carros europeus (Fiat, Lancia, Citroën, Simca, Jaguar, Morris, Austin, etc...) O carro da família era um Jaguar Mark V 1952, na época considerado uma super-máquina. O engraçado é que ele tinha um problema crônico no motor de arranque, que muitos anos depois vim a saber que era um problema crônico dos equipamentos elétricos Lucas. Ninguém conseguia resolver e quando engripava, tínhamos que dar uma porradas para que funcionasse. Minha mãe, com medo de choques elétricos, levava no carro uma viga de peroba para “malhar” a peça. Era hilário vê-la descer do carro bem vestida, com a peroba na mão, abrir o capô e ficar “malhando” o motor de arranque até funcionar. Naquela época, íamos visitar meus tios no Rio de Janeiro pela Dutra velha em mais ou menos 4 horas e meia de estrada. Era um temporal ! Este carro ficou na minha mente como algo sublime, sòmente superado por outro Mark V azul metálico, porém conversível, do Oswaldo e Tunny, amigos dos meus pais.
Após um acidente com o Jaguar na Rodovia Presidente Dutra, quando um amigo do meu pai atropelou um cavalo inutilizando o carro, veio o próximo veículo da família; um Citroën 1947 11 Legére que segundo meu pai, andava muito bem. Longe do Jaguar, é claro, porém infelizmente ou felizmente foi nesse veículo o meu aprendizado. Aquele câmbio no painel com a 1ª “dura” (não sincronizada) era um desafio. Na época, no meio automobilístico falavam que o meu pai era o único cara que reduzia para a 1ª sem arranhar. Bom meu aprendizado foi forçado depois que atropelei meu pai na saída da garagem de casa ! Eu observava a rotina da saída dele diàriamente ao nos levar para a escola: puxar o afogador, dar a partida, deixar o motor esquentando enquanto abria o portão. Eu observava tudo aquilo, sentado no banco traseiro e em um belo dia ensolarado, devo ter sentido um ataque de produtividade. Resolvi “ajudar” e enquanto meu pai abria o portão eu pensei que iria preparar o carro para a saída. Pulei para o banco do motorista, engatei a ré e soltei o pedal da embreagem. Com o afogador puxado, o carro saiu e atropelou meu pai quando abria o portão. O resultado foi trágico, arrastado segurando no para-choque traseiro até conseguir escapar, com as costas em carne viva e assustado como nunca tinha visto. Porém o resultado foi fantástico, já que apesar da bronca, aos 8 anos de idade, tive as minhas primeiras aulas. Aprendi a dirigir neste Citroën e, com orgulho posso dizer que em uma semana, enfiava a 1ª sem arranhar. Devo, portanto ter sido o 2º a conseguir o feito em um Citroën, se é que a lenda que meu pai era o 1º foi verdadeira. Este Citroën foi trocado por um 1954, já com o porta-mala protuberante. O antigo foi vendido para um “playboy” da época que o destruiu dois dias após a compra, em um poste em frente ao Jockey, tirando racha. Vimos tudo no Repórter Esso e o reconhecemos imediatamente pelo que sobrou pelos faróis de milha amarelos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário